domingo, março 29, 2009

3ª Crónica das Famílias - Março de 2009

Dia 21 de Março, início da Primavera.
Na passada quarta feira, véspera do Dia do Pai, tivemos a nossa reunião mensal, que correu especialmente bem dada a amável presença de 3 dos nossos casos de família acompanhados. O Sr. F., o ZM1 e o M. foram verdadeiros protagonistas e mestres nos testemunhos simples, genuínos e transparentes que deram, e nas palavras e emoções que transmitiram.
Nesse mesmo dia uma voluntária nova, que passou por este blog, resolveu aparecer para "espreitar" o funcionamento do grupo e integrou a nossa vertente! Mais uma ajuda em boa hora, numa fase de algumas desistências por indisponibilidades várias e pessoas a precisarem sempre de algum tipo de conforto…
Pegando no ponto de situação logística aproveito então para informar que, ao dia de hoje, são 13 as "flores da nossa estação" que acompanhamos com cerca de 30 "colaboradores de Jardineiro" vestidos de voluntários e 10 "adubadores" em apadrinhamento.
Nesse Jardim imenso, há uma certa flôr chamada B. de quem vos falarei hoje, entre o voo das andorinhas.
A B. tem hoje 26 anos e continua no seu processo de tratamento e reconstrução pessoal e social, iniciado connosco há cerca de 2 anos e meio atrás. Decorria o ano de 2005 quando, numa das viagens de ronda dominical, começamos a estabelecer algum contacto com ela; contacto esse que foi sendo aprofundado nos tempos seguintes como quem rega, protege do vento, ou deixa entrar os primeiros raios de sol. Depois de algumas lutas complicadas e primeiros desafios ultrapassados a B. entusiasmou-se verdadeiramente com a ideia de tentar mudar de vida, mais uma vez… Em 2007 aceitou iniciar um processo de desintoxicação com a força de vontade interior de quem já viveu o que muitos adultos, felizmente, nunca viverão. Com esse passo, ainda em processo, outros bagos foram surgindo e sendo colhidos, devagar, devagarinho... Uma família retoma, ao de leve, a ínfima presença de quem avança ainda desconfiado; um ente querido desabrocha suave no contacto e arrisca votos de fé no novo ciclo; um distante transporte ganha contornos de concretização futura deixado no canto a velha cadeira de rodas; o corpo torna-se mais composto e robusto; o olhar ganhando foco; um dia "request" porque houve compromisso e verdade… Como a alternância das estações os passinhos da B. têm sido feitos de ciclos de avanços "em círculos", onde "à frente" e "atrás" se tocam inúmeras vezes em linhas que não são rectas e desenhos que não se fazem dessas certezas e objectividades com que algumas vidas humanas são estabelecidas. A B. tem o seu próprio clima, o seu próprio tempo, a usa própria estação.
No final do ano de 2008 algumas alterações no estabelecimento onde está em tratamento, bem como na vida dos outros utentes que a rodeavam, proporcionou nova meteorologia - desta vez mais chuvosa, podemos dizê-lo com segurança… - condizendo com a estação invernal que decorria pela altura. O seu comportamento tomou posturas menos correctas, foi necessário algum espaço para a reflexão, para a hibernação.
Actualmente mudou de vaso, mantendo-se no mesmo jardim. Continua em tratamento na mesma instituição mas numa outra zona. Essa mudança impôs-nos, mais uma vez, um tempo de espera e necessária distância. A vida é toda ela feita destes ritmos… Nós é que muitas vezes teimamos em relógios pessoais que de pouco ou nada servem. As estações são senhoras do seu próprio tempo e ora é Primavera… ora chove torrencialmente. Nelas continuamos presentes, amando-a diariamente. Na sua árdua terra em que tem sido raiz em busca de humidade e aprofundamento, o Calor é Silêncio… e será sempre no seio mais íntimo desse chilrear interior que a B. poderá florir verdadeiramente.
Raquel Henriques

sexta-feira, março 27, 2009

"Mankind Is No Island"



O Tropfest e o maior festival de curtas metragens do mundo. Começou há 17 anos atrás em Sydney e no ano passado teve a sua primeira edição em Nova York. O vencedor do ano passado foi este filme que foi totalmente filmado com um telemóvel. O seu orçamento foi de 40 dólares (cerca de 30 euros)!

sexta-feira, março 20, 2009

Crónica das Aldeias - 07.03.2009

Sábado, um sol maravilhoso que nos aquece o coração! Partida rumo às aldeias, para visitar as nossas "senhoras" que poderiam ser nossas avós!

Paragem em Candemil, o nosso local de almoço nestes dias de Inverno, instalámo-nos confortavelmente na varanda da casa da paróquia a saborear a bela sopa de espargos enquanto a conversa fluía entre todos, animada pelos raios de sol.

Partimos em direcção às aldeias, dividimo-nos, para mais tarde, nos encontrarmos em Bustelo e partilharmos a nossa tarde e a nossa vivência.

Com um até já a todos, vou para Basseiros, uma aldeia pequena e simpática, as flores já começam a aparecer, ouvem-se os pássaros chilrear, tudo parece começar a florescer…
Vou até à casa da D. Deolinda que encontro sentada à porta ao sol, não me reconheceu, mas após uma breve explicação identificou-me (afinal só lá tinha estado uma vez há 15 dias atrás), falou-me da doença que a afecta e da sua fragilidade e debilidade física, mas aos poucos lá começou a sorrir e a sentir-se de cada vez mais à vontade, e eu a agradecer aquele desbloqueio.

Mas, entretanto uma agradável surpresa, a Amália disponibilizou-se para fazer as visitas comigo, uma jovem de 17 anos que traz sempre um sorriso no rosto e uma palavra de carinho e conforto para todos!

Despedimo-nos da D. Deolinda, não antes de termos dado dois dedos de conversa com a D. Celeste, que é vizinha e vem sempre receber-nos com um beijo e um sorriso, nestes momentos sinto que existe uma partilha muito genuína entre o ser humano, mesmo quando não conhecemos muito bem as pessoas.

A D. Glória não estava em casa, pelo que fomos ter com a D. Hermínia, que nos recebeu de braços abertos e nos convidou a entrar, falámos sobre os seus filhos, netos, a sua vida, partilhámos também um pouco das nossas vidas com esta senhora de ar feliz e bem com a vida, e continuámos animadas pelos sorrisos que íamos recebendo.

Subimos até à casa da D. Conceição que estava ao sol, e ficou muito feliz ao ver-nos, estava à nossa espera, perguntou pelas outras meninas, como estavam, porque não tinham vindo. E resolveu oferecer-nos uma pulseirinha que tinha comprado numa das suas visitas a Amarante, enquanto dizia "não é nada de especial", o objecto pode não ser especial, mas o gesto é generoso e carinhoso, por parte daquela senhora dos seus 80 anos, que numa das suas idas ao médico a Amarante se lembra das meninas que a vão visitar ao sábado. São estes pequenos, grandes gestos que nos enchem o coração, e nos fazem acreditar que estas visitas são um dar e receber constante, por vezes, sinto que recebo muito mais do aquilo que dou!

Depois de um beijinho, lá vamos encosta acima rumo à casa da D. Dulce, que está rodeada pelo marido, pela filha e pelo neto, mais dois dedos de conversa e vamos embora.

A Amália e eu despedimo-nos, e vou ter ao ponto de encontro com o resto do grupo.

Enquanto caminho e olho para aquela paisagem maravilhosa sinto-me feliz, pela tarde, pela forma como as pessoas me receberam, pela preciosa ajuda da Amália, pela pulseirinha da D. Conceição, e por todos os abraços e sorrisos que fui recebendo ao longo daquela tarde e que me vão tornando mais enriquecida, mais consciente, mais atenta, e, especialmente mais grata pela vida de todas estas pessoas que cruzam a minha de formas tão diferentes mas tão boas e tão cheias de alegria e generosidade.

No final da tarde, já no regresso a casa sinto que tudo faz sentido, e trago a esperança de que posso ser um bocadinho melhor, com estes pequenos presentes que vou recebendo ao longo da minha vida, e dou graças por isso!

Sara Gonçalves | Aldeia de Basseiros

sábado, março 14, 2009

2ª Crónica das Famílias - Fevereiro de 2009

Com um ligeiro atraso, continuo o caminho lançado pela Raquel, com o arranque deste novo ano, de darmos a conhecer um pouco mais o que faSemos nas Famílias.
Estamos a “apadrinhar” 5 casos, com novas voluntárias a começarem a dar os primeiros passos em todos eles. O apadrinhamento é o nome que damos ao acompanhamento que fazemos dos novos voluntários, quer seja para começar casos novos (dois neste momento), quer seja para melhor ajudar o caso em questão, quer para fazer transição entre pessoas que acompanham um caso.
Este é o relato de um caso com alto e baixos, com momentos de passos em frente e alegrias e também passos atrás e desilusões, acompanhando o Paulo (nome fictício) na sua luta para reconstruir a sua vida.
Falemos então do Paulo, jovem de trinta e qualquer coisa anos, que a ronda dos Aliados conheceu junto ao Teatro S. João no Outono de 2006. Na altura falou-se apenas ao de leve (ainda mais que ainda não o conhecíamos) em desintoxicação, e ele não se mostrou reticente, ou evasivo como tantas vezes acontece, quando as pessoas ainda não se decidiram se querem tentar virar as costas à droga ou não.
Ficou o compromisso de recolher informação e ver em que poderíamos ajudar. No domingo seguinte, falou-se directamente com um técnico amigo do FAS (que é sempre uma grande ajuda) e marcou-se encontro para a manhã seguinte às 8h.
Assim começou este caso de Famílias, nesse dia em que o Paulo lá estava à espera nervoso e com receio. Passadas 4 horas saía do CAT integrado num programa de Metadona.
Nos primeiros tempos não se manteve contacto pois ainda demorou um mês e meio a arranjar um quarto, e por isso mudava sempre de local, a pensar na sua vida futura e que isso facilitaria a sua reintegração.
Passados alguns meses conseguiu uma primeira oportunidade de trabalho, mas que não se manteve durante muito tempo.
Após algum tempo reataram-se os laços com a família, em que o voluntário que o acompanha foi com ele visitar a família, foi um passo importante!
Comemorou-se o aniversário do Paulo com um coração cheio, pela primeira vez desde alguns anos, fora da rua.
Mais tarde entrou uma nova voluntária para ajudar neste caso, diminuindo os tempos de solidão profunda do Paulo que estava longe da família e sem qualquer apoio, sem ser o da Segurança Social e o do FAS.
Depois apareceu uma segunda oportunidade de trabalho e parecia que o céu era o limite! Mas durou pouco… Sete semanas mais tarde voltava-se à procura de trabalho, e o pior momento foi quando um mês mais tarde, umas confusões com as pessoas de onde dormia o fizeram voltar a dormir na rua, o seu pior pesadelo! Em dois meses, foi-se da grande alegria pelo Paulo à angústia profunda… Muitos telefonemas e conversas depois, apareceu um novo quarto um mês mais tarde.
A morte de um familiar com quem tinha uma ligação forte foi outro momento difícil e que lentamente provocou uma mudança, surgiu a vontade de internamento prolongado para desintoxicação e o mesmo 3 meses depois foi aprovado…
E… a história pára aqui, aguarda-se os próximos passos, com muita esperança!
Os dois voluntários empenham-se muito neste caso já com história, criando uma rede de contactos habituais com as pessoas com quem o Paulo interage, isso ajuda muito e é muito importante em alturas difíceis. Assim são pivots de ajuda e um pouco de família.
Já ajudaram em mudanças de quarto umas quatro vezes e assistiram a conquista e a perda de dois empregos, e continuam a acreditar no Paulo e a querer estar lá, para o que der e vier.
Jorge Mayer (subcoordenação Famílias)

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Crónica das Aldeias - 21.02.2009

Mais um sábado rumo às “nossas” aldeias…
Desta vez mais alegres, novas chegadas, novos voluntários.
A par do almoço, partilha-se um pouco de nós, um pouco do sol, antes de nos dividirmos.
Eu e o Diogo ficamos em Candemil.

“Ando devagar porque já tive pressa, levo este sorriso porque já chorei demais…”
Lembro-me desta música enquanto passeamos com a D. Aurélia. Passo certo, pelos altos e baixos do caminho, cara alegre, boas palavras, como se o que não é bom pesasse demais para ser carregado. Vai falando, contando episódios dos seus noventa e três anos, perguntando pelos nossos pais, nossos avós, dando sustento à verdade de “recebe mais, quem mais partilha”! E nós vamos também partilhando. “Sempre fui bem disposta, mas às vezes as pessoas não sabiam e só percebiam quando falavam mais comigo!”
Findas as voltas, rumamos à próxima casa, D. Alda. Pelo caminho encontrámos a D. Maria do Carmo, a aproveitar o sol. Depois de a sentarmos melhor, ficou um “até já”.

A gripe ainda não foi de vez. D. Alda levanta-se num ápice, fazendo a oferta de praxe - um cházinho. A cara vai-se alegrando, entre mágoas, choros e cantigas tudo se leva, a quem foi brindado com a inteligência, a acutilância e o humor. Não se esquecem os que vão passando…
Al – O João está bom? Qual é a morada dele? E o D. João II?
Passa-se dos contratempos do Natal, para as cantigas e a conversa rola…
Al – Acho que os cegos têm muito jeito para a música!
Aur – É para apagar a nostalgia. (…)
Nesta visita ouviu-se Frei Hermano da Câmara (FHC), a cassete já gasta ainda alegra. Lembram, da rádio, histórias que nos vão contando como parte do seu dia.
Al – Numa entrevista, ouvi um repórter perguntar ao FHC: - “Não sente saudade do tempo dos bailes, de andar a tocar nos salões?”, FHC - “Nessa altura tinha muitos aplausos, mas chegava a casa e sentia-me muito só.”
E a propósito disso vai cantarolando “Entreguei-me todo a Cristo, nunca mais me sinto só”.
D. Maria do Carmo ainda lá estava, apesar do sol menos quente. Fomos para dentro de sua casa, à velocidade que o corpo deixa. Entretanto já somos cinco. Caras que se animam, trocas de palavras entre “tias” e “meninas”, aproximando histórias, acelerando a tarde.
Ficou um até breve, um novo brilho que trazemos e temos esperança de deixar.
A mim ficou uma de tantas canções que a cassete passou nessa tarde…

“As nossas capas
rotas, velhinhas
Todas negrinhas
Também no ar
São andorinhas
Que se preparam
Para emigrar.”

Isabel Teixeira Gomes | Aldeia de Candemil

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Crónica da Ronda da Boavista - 15.02.2009

Preparação dos sacos... Oração inicial... Partida...

Partida para uma ronda em que o carro estava lotado. Erámos 5! E fomos ao encontro com todos aqueles que já fazem parte das nossas vidas.

Hoje não estivemos com a D.F pois no domingo passado disse-nos que iria a Torres Vedras. Mesmo assim passamos pelo parque de estacionamento onde costuma estar para deixar um saco de ternura, tal como tinhamos combinado.

Depois seguimos para o Lar das irmazinhãs dos Pobres onde já é costume deixar o pão que sobra depois de fazermos os sacos para os sem-abrigo que visitamos. Passamos o saco do pão para o lado de dentro do lar e fomos ao encontro do Sr. G. Estava bem disposto e falou-nos do seu carro que já anda em circulação. Também nos falou das novas mezinhas que tem e que está a fazer para o coração.

Entretento a D. G avisou que estava na paragem a nossa espera e que estava doente, pelo que fomos logo ter com ela. Quando a encontramos disse-nos que se sentia muito cansada e como apareceu logo o seu autocarro não falamos muito mais.

Uma vez que estavamos no Bom Sucesso aproveitamos para estar com o Sr. Al e com o JP. O sr. Al já acabou o seu trabalho comunitário e falou-nos do filho que não lhe ligou desde que foi para o Brazil. Também nos mostrou um cartão que tinha com a fotografia do filho. O JP continua a não ir ao Centro de Emprego e como já vem sendo hábito ao Domingo não vai à metadona.

Após estas visitas fomos terminar a ronda no Campo Alegre. O Sr. Z já estava a dormir por isso não falamos muito. Aceitou um copo de chá mas não aceitou o nosso saco pois já lhe tinham dado muita coisa. Com o Sr. A falamos de futebol embora ele não tenha ouvido o relato pois está sem rádio. Também incentivamos o Sr. A a fazer uma limpeza ao local onde dorme pois o sítio está com muito lixo espalhado.

E assim terminamos a ronda com um momento de partilha e com os desejos de uma boa semana para todos.

Manuela Seixas

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Crónica das Aldeias - 24.01.2009

Vimos cantar as Janeiras | Boas festas desejar | Que tenha muita saúde | No ano qu'está a entrar. Foi com esta letra e a música de "Mãe querida, mãe querida" que o grupo de voluntários das aldeias fez sucesso no Marão. De início todas (e todas por que eram 10 voluntárias femininas) se mostraram apreensivas com a música um tanto ou quanto melancólica. Mas depois entrou no ouvido e "entranhou-se". Após o habitual almoço partilhado, seguiram-se os ensaios que não duraram mais do que 30 minutos. Talvez tempo de menos para quem nunca tinha cantado tais melodias. Mas o resultado foi glorificador. Partimos para a primeira aldeia, Candemil, com um plano de cantarmos duas a três músicas em cada casa, ou seja, não estaríamos mais do que 15 minutos em cada local. E, mesmo assim, a tarefa ia ser difícil, pois teríamos de chegar a 14 casas, de preferência ainda com voz e ânimo para alegrar as pessoas que visitamos e de modo a não entrarmos pela noite dentro (leia-se pelo jantar das pessoas adentro, o que habitualmente começa pelas 18h30/19h).
Mas o Homem planeia e Deus troca-nos as voltas. Chegamos à casa da Dona A., que habitualmente está bem-disposta, e encontramo-la muito cabisbaixa. Para além da gripe, estava sem telefone há uma série de dias. Isolada do mundo e da família. Logo nos dispusemos a ajudar. Uma chamada para os familiares do Porto para ver como estavam de saúde e um telefonema para o operador de modo a solucionar o problema. A família estava bem, Dona A. descansou. Até já se levantou da cama para oferecer um cálice de vinho do Porto.
Com o operador é que foi mais complicado. "É o sistema, diriam alguns". A chamada não surtia resultados. Sugeri que o restante grupo continuasse as visitas e fiquei ali pelo menos 20 minutos à espera que me atendessem o telefone! Descrevi o problema, "o telefone não faz chamadas e ao atender não se ouve." Sugestão do lado de lá da linha e de quem não conhece a realidade do Marão. "Não tem outro aparelho para substituir de modo a apurarmos se é do aparelho ou da linha?!" Ao que respondi calmamente, embora remoída por dentro: "Não, não temos aparelho. Têm de enviar um técnico aqui para ver o que se passa, pois a senhora vive sozinha e este é o único meio de contacto com o mundo."
E lá marcaram, com algum custo, a vinda do técnico (que segundo a Dona A. me disse a posteriori esteve lá logo no início da semana).
A Dona A. agradeceu profundamente e eu levei o sorriso e as palavras no coração.
Seguimos viagem. De Candemil para Ansiães. Aqui não cantamos na casa da Dona R., porque não entra música dentro dela desde que o marido e o filho se foram. Ainda assim, recebeu-nos bem, como sempre. A Dona O. estava dentro de casa, o que não é habitual, por causa do frio. Escutou-nos alegremente, ainda, que os ouvidos já a atraiçoem. Com um pulinho já estávamos com a Dona C., a nossa "cantora-mor". Infelizmente não estava nos seus dias, "está fraquinha", comentavam os visitadores de Ansiães. Apesar disso, ouviu-nos atentamente, muitas vezes batendo palmas e, ainda, arranjou força para "gritar": "levem, levem, levem uma laranja."
Basseiros foi a paragem seguinte. Não encontramos duas senhoras em casa. Às vezes acontece, ou porque vão para casa dos filhos, ou porque se deslocam para os seus afazeres. Mas a Dona C. estava em casa. A visita levou calor ao seu coração que ainda lembra o marido, falecido há dois anos, com lágrimas nos olhos. "Gostei muito, muito obrigada" repetia insistentemente, perguntando se tinha de dar alguma coisa como é tradição nas Janeiras. "É claro que não!" (pelo menos material, porque emocional já estava a dar muito). A Dona D., estava junto à lareira para se aquecer. Encontrava-se adoentada e agradecendo a visita foi-nos pedindo para não cantarmos muito, não estava com muita disposição.
Dali rumamos a Bustelo. A Dona P. também não estava em casa. Seguimos para a casa da Dona C. e da irmã, a Dona M. Na varanda fomos entoando os cânticos festivos que chamavam a atenção de quem passava na rua "estas meninas não parecem deste tempo", ouviam-se algumas vozes. Seguiu-se a casa da Dona F. que, ao fim de uma música, já tinha entrado no ritmo e acompanhava-nos nas cantorias. A casa do Senhor A. e da Dona E. foi a última a ser presenteada. Fechamos ao rubro, com as gargantas ainda afinadas, a dar conta de todo o repertório do dia. E a abrir a porta aos curiosos que iam entrando para perceber o porque das guitarras e das canções. O dia terminou com a oração e partilha em Bustelo, com o frio a arrefecer o corpo, mas com o coração quente de tanta alegria. Para o ano, esperamos, há mais.

Claúdia Gonçalves

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Crónica da Visita aos Imigrantes - 08.02.2009

Mais uma visita à UHSA…e, no entanto, nunca será possível dizer que qualquer uma delas é apenas 'mais uma'…

Há um ano (um ano!) que o nosso grupo faz o que pode para amenizar, por pouco que seja, o clima de sofrimento que se abate sobre as vidas daqueles que vêem os seus sonhos destruídos e os seus esforços e esperanças reduzidos a nada pelo 'sistema' duma 'civilização avançada'… Esperanças de pessoas de todo o mundo que arriscam tudo o que têm por uma oportunidade no nosso abençoado Portugal, de que tanto nos queixamos, vendo-o como um porto de abrigo, um ponto seguro a partir do qual esperam poder partir para uma nova viagem, começar uma nova vida, iniciar uma nova luta que, no final de contas, nos é comum a todos…

Há um ano que, a cada mês (agora distribuídos em dois grupos), cada um de nós visita os imigrantes que, por algum motivo considerados ilegais, são apanhados pelas autoridades portuguesas por todo o país e aprisionados na Unidade Habitacional de Santo António.

É sensivelmente há um ano que tentamos com eles partilhar um bocadinho de nós mesmos e, quem sabe, fazer um bocadinho parte do mundo daqueles a quem dedicamos este bocadinho das nossas vidas, que às vezes parece tão insignificante mas que em determinados momentos se revela parte de um surpreendente milagre de que todos fazemos parte…

Entre desilusões e alegrias, momentos de emoção e de euforia, já tivemos oportunidade de guardar nas nossas almas e de enriquecer as nossas existências com a alegria e boa disposição de marroquinos e brasileiros, com o respeito e cavalheirismo de ucranianos e bielorrussos, com a calma e simpatia de indianos e paquistaneses, com talentos escondidos e olhares alegres mas profundamente marcados pelo sofrimento de israelitas e bósnios, o ritmo no sangue dos luso falantes dos vários pontos de África ou o à vontade e desembaraço (às vezes demais:) de nigerianos e croatas…

Entre sorrisos e caras de caso há sempre algo que nos marca: a frustração perante a impossibilidade de fazer o que quer que seja além do pouco que tentamos fazer e que às vezes nos leva a duvidar da utilidade do nosso esforço, e, por outro lado, a alegria incomparável que é ouvir de alguém, cujos olhos marejados exprimem uma gratidão indescritível, um "Obrigado, hoje fizeram-me feliz" que nos faz crer que vale sempre a pena dar tudo o que temos, por pouco que seja, porque recebemos sempre muito mais.

Sejam quais forem as dificuldades com que nos deparemos, serão sempre momentos como este que nos darão força para continuar. Momentos como os que tivemos na visita de hoje… Depois de um mês de ausência (por razões alheias à nossa vontade) são visitas como a última que nos fazem ter a certeza do quanto tudo isto significa…

Éramos 4 à porta da UHSA…4 mulheres à chuva à espera que as portas da 'casa' que já tão bem conhecemos se nos abrissem para mais uma 'aventura' (que o é, sempre) no mundo dos sonhos desfeitos… Sem saber muito bem o que fazer perante mais de 20 utentes de várias nacionalidades que já sabíamos que estariam lá dentro, cuja intimidade íamos, de certa forma, invadir durante as duas horas que se seguiriam, entramos, quase a medo, munidas com o bom humor da nossa nova 'sub-coordenadora', a simpatia da nossa algarvia de serviço, a calma da nossa menina alentejana e, claro, a bela da minha viola desafinada ás costas! :)

Não esperávamos nada, só que a visita corresse bem…e correu melhor ainda!

Para começar, fomos recebidas de braços abertos por um grupo que, de imediato, se reuniu à nossa volta pronto a escutar tudo o que tivéssemos a dizer. Nunca tal nos aconteceu até hoje!

Um senhor angolano tratou de chamar toda a gente que na altura se encontrava no salão principal para 'ouvir as meninas'. Só uma pessoa não se juntou ao grupo (e foi especialmente doloroso ver que o facto causou desconforto entre os residentes…), mas de resto todos eles se sentaram juntos esperando pelo que pensavam que seria um espectáculo de variedades ou coisa que o valha… Ainda bem que não pagavam bilhete… Saiu dali um verdadeiro assassinato da canção 'Don't Give Up'… mas foram os próprios que nos pediram uma 'modinha' portuguesa, e então lá nos safamos com uma 'Laurindinha' improvisada mas que conseguiu animar o nosso 'público' a tocar e a cantar connosco, com batuque africano à mistura e tudo!

Depois da introdução, em que também os 'obrigamos' a cantar o nosso já mais que conhecido 'No Xukurelá' – foi especialmente bonito ver os chineses, que raramente participam, a torcer a língua o mais que puderam para nos acompanhar:) –, seguimos com o jogo do novelo – que não chegou para todos, tantos eram os participantes! :) – e, feitas as apresentações, seguimos diferentes caminhos consoante a tarde correu…

Adorei ver o grupo que se juntou para jogar às cartas e chamou (!) a Cláudia para os acompanhar numa sueca; a animação com que quase se destruíram as prateleiras da sala durante o jogo de pontaria conduzido pela Amélia; a expressão de felicidade dos argelinos enquanto ensinavam à Sónia algumas entoações em línguas diferentes:); a forma como se divertiram os chineses com a minha falta de jeito para pronunciar palavras em chinês ou para lhes explicar o que era um dragão…que vergonha…mas rimo-nos tanto!... :) Não esquecerei também as raparigas bósnias, que só não dançavam porque o pai duma delas havia falecido pouco tempo antes… a confiança que demonstraram ao partilhá-lo comigo… A alegria de um croata a cantar o 'La shate mi cantare' a plenos pulmões enquanto o 'grupo dos cd's' fazia uma lista de 'discos pedidos' para a próxima visita…

Quase todos eles, incluindo aqueles com quem não conseguimos estabelecer uma maior proximidade ao longo das duas horas que ali passamos, se deslocaram à porta da 'nossa' salinha, e criaram ali um verdadeiro 'corredor do adeus' quando saímos… Só se ouvia 'Au revoir's, 'Adiós' e até 'Taitié' (que é chinês, já aprendi!) … Tenho a certeza que nenhuma de nós se importaria de atrasar aquela despedida por mais umas horas…

Tenho certeza que todas nós saímos de lá mais motivadas que nunca para enfrentar as dificuldades que se nos depararem ao longo deste caminho que escolhemos percorrer… Por aqueles que não têm outro remédio senão percorre-lo, fazemos por acreditar que os pequenos gestos podem, realmente, fazer a diferença para eles…

Para nós fazem, sem dúvida…
Ana Pinho

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Crónica da Ronda da Batalha - 25.01.2009

Uma noite de chuva… Encontrar o Sr. D. na rua, com aquela idade é mesmo de partir o coração, mas tem de ser. Falamos um pouco, aproveitei a oportunidade para o tapar com um cobertor – que bem lhe fez, aconchegado. Pediu para que o deixasse dormir e seguimos viagem para a próxima paragem.

O P. no seu novo sítio que não deixa de ser bastante original e acima de tudo bastante quentinho – nada de chuvas, mas… obviamente que um armário suspenso não é o melhor local para pernoitar! O P. está a aguardar a ajuda da assistente social apesar de se mostrar bastante impaciente. O outro "pequeno problema" que o incomoda bastante é a excessiva quantidade de cabelo pelo que fomos incumbidos da árdua tarefa de arranjar uma máquina de cortar cabelo a pilhas e um gorro (e "já agora" umas meias bem quentinhas). A promessa de melhor tentativa para arranjar todas estas coisas ficou a certeza de regresso na semana a seguir.

O Sr. F. estava bastante confuso e a falar com "os seus amigos"…. Conversamos durante uns minutos, conversas bastante vagas e confusas, pois o Sr. F. estava bastante aluado, mas sabemos que aqueles momentos são bastante preciosos.

Já o Sr. M. continua na expectativa de ter o resultado dos exames, os medicamentos não injectáveis para ir ao encontro da família em África… Temos ajudado o quanto possível – aguardamos notícias de uma nova semana com mais e boas notícias.

Sem dúvida vamos para casa com o coração cheio por saber que levamos um bocadito de cada um de nós em noites tão sombrias como estas.

Sabina Martins

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

1ª Crónica das Famílias - Janeiro de 2009

O mês terminou e nós iniciamos, nesta primeira crónica, o começo de um ciclo de registos mensais da vertente das Famílias. Em cada mês haverá uma partilha dos dias que decorreram, do trabalho que foi feito, da entrega oferecida e dos passos dados pelas pessoas que ajudamos. Serão, à semelhança das outras crónicas do FASrondas, espaços de testemunhos “com medida”, ou seja, relatos onde a privacidade e a intimidade das pessoas faladas não poderá ser colocada em causa. Em cada mês focaremos de modo mais aprofundado um dos casos de Família, até que todas as situações “vos sejam apresentadas” e além da reflexão sobre o estado geral de todos os acompanhamentos.

As Famílias são uma vertente muito particular onde lidamos ainda mais de perto com as pessoas ajudadas. A regularidade, o tempo e continuidade das visitas estabelecem linhas de especial aprofundamento afectivo e de particular empenho estrutural. Acompanhamos situações diversas e, em cada uma delas, integramos parte de uma crónica que é inteira, imensa e única. Todas possuem momentos variados, difíceis e crescentes, de empenhos necessariamente mais assertivos, mais esforçados e “conquistazinhas”, efectivamente… gigantes.
Neste momento somos 31 voluntários, 13 padrinhos e 13 Famílias. Acompanhamos o E., a B., o Z.M1., a D.E. e Sr. F., o Sr. F.A., o Sr. O., a M., o Z.M2, o M., a Le., a D.R. e Sr. D. e D.C., a Li. e a D.G.. A Fi., a Fe. e o Sr. E constituem três novos casos a tomar início durante o mês de Fevereiro. O grupo tem margem de manobra para crescer e alargar os braços da ajuda mas procuramos ir dando um passo de cada vez, com o ritmo imposto pela realidade do que somos e das pessoas com quem assumimos compromissos de cuidado, ajuda e Amor. Há uma natural evolução nos laços e nos afectos estabelecidos que exige aprofundamento e descoberta permanente se queremos estar, com a verdade, ao lado da “nossa família”.

Comecemos com o nosso querido Z.M2. O Z.M2 é um senhor com quase meio século de idade que a ronda da Areosa conheceu nas visitas de domingo à noite, no final do ano de 2006. Nos finais de 2007 entendeu-se tratar de um caso que estaria em condições para integrar a vertente das Famílias. As conversas dominicais haviam permitido o estabelecimento de um contacto sistemático e o Z.M2 demonstrava-se interessado num acompanhamento ainda mais próximo. Com muitos anos de consumo de drogas e de vida na rua este era o momento ideal para darmos esse passo já que ele oferecia provas de começar, afirmativamente, um novo reinício na construção da sua vida. Em Abril de 2008 a Sara G. e a Inês B., voluntárias das Famílias, eram-lhe apresentadas e, nesse encontro, tomava início a história de um laço novo.
Esta é uma narração de um “caso mais feliz”, sendo que, apesar de um ou outro momento mais difícil, o Z.M2 tem mantido grande consistência no tratamento da desintoxicação e na estabilidade individual, familiar e social. Entenda-se, com isto, que os problemas e os desafios têm surgido! Mas que, mais do que isso, o Z.M2 tem demonstrado o essencial para “a felicidade”: a fidelidade aos seus compromissos e objectivos pessoais e colectivos. O positivismo e desportivismo constantes o empenho com que luta e investe no plano de vida que para si mesmo estipulou e a humildade com que solicita uma mão quando está mais fragilizado, tirando partido das ajudas que tem a graça de ter disponíveis e das pessoas próximas que muito o amam, têm sido autênticas armas de conquista.
Em 9 meses o Z.M2. avançou com aprovação no tratamento com metadona, cumpriu assertivamente e pacientemente as regras dos estabelecimentos onde habitou, mudou de estadia, alcançou melhorias na sua vida pessoal, reconquistou confiança dos familiares, alargou contactos com eles, procurou ocupação em cursos, formações ou outras actividades laborais, manteve-se o mais afastado possível de ambientes antigos que não considera positivos, ajudou um velho amigo na venda de algumas miudezas da sua loja enquanto não obtinha respostas às candidaturas e programas em que se inscreveu, estabeleceu graus de conquista de autonomia e disciplina, e foi, entre passinhos pacientes e optimistas, reconstruindo a sua auto estima, estimulando o prazer pela vida e redescobrindo o sabor de cada coisa. Em Agosto de 2008 foi, finalmente, contactado para prestar serviços de manutenção de jardins numa Junta de Freguesia! Este foi um momento especialmente marcante pois permitiu-lhe (re)sentir-se útil, iniciar um novo ciclo de autonomia e responsabilidade financeira e transitar para uma outra fase social do seu processo de reinserção social, em ambientes íntegros e salutares. Presentemente aguarda, ansiosamente e com promissoras expectativas, pela renovação do seu contrato laboral! O Z.M2 é cumpridor e responsável. Este facto tem sido sistematicamente comprovado pelo seu comportamento nesse trabalho, no seu rigor face às regras das instituições onde viveu e no cuidado, carinho e preocupação que demonstra sentir pelos outros.
A Sara e a Inês entregaram-se verdadeiramente a esta nova pessoa nas suas vidas e apaixonam-nos sistematicamente com os seus testemunhos. Em férias ou indisponibilidades forçadas contactam-no através de telefonemas ou envio de mensagens. Encontram-se em sítios habituais para ouvirem e falarem. As histórias do presente e do passado saltam, correm, interpelam-se e projectam-se no futuro, ao ritmo de conversas fluidas e agradáveis entre os três. Falam de música, cantores e concertos, livros, notícias e artigos de jornais, abordam temas religiosos, política, actualidades… Conquistaram, nele, espaços de confiança e naturalidade. Sabem do que gosta, por isso há espaço para as coisas que recolhe nas suas colecções, para toda a espécie de raças de cães, para o futebol, o Sporting, o cinema, o café daquele sítio, a feira tal, o jantar em determinado lado. Ajudaram-no em mudanças, constipações, consultas, currículos e dias mais complicados. Com ele aprendem sobre o funcionamento de um CRI e conversam sobre este último processo da sua desintoxicação. O contacto com as assistentes sociais, e outros técnicos da sua rede social, é efectivo, sendo elas uma ajuda útil no esclarecimento de alguns pontos simples.
O Z.M2 vai-se revelando extremamente sensível em relação ao que o rodeia e às necessidades e carências que observa. É com curiosidade que questiona sobre o voluntariado e as diversas formas de contribuição e ajuda. Por isso no final do ano passado foram, os três juntos, para uma campanha do Banco Alimentar! – experiência que o Z.M2 adorou…
A Sara e a Inês são uma espécie de ponte. Como outras estabelecem-lhe ligações “com o lado de cá”, ligações que foram e são por ele solicitadas e cultivadas. Alimentam-lhe o ânimo, a esperança e o positivismo. Dá-se. Dão-se. Troca-se. E, no seu tempo e caminho, o Z.M2 vai brilhando… e fazendo brilhar.
“Não houvesse pessoas maravilhosas no Mundo… seria Natal todos os dias… Obrigada por serem dessas pessoas…” (Z.M2)
Raquel Henriques

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Crónica da Ronda da Areosa - 18.01.2009

Vou falar da pessoa de quem mais gosto nas noites de domingo. Há um ano que não o vejo, nunca mais o verei, mas em lembrá-lo encontro razão para cada domingo que vou. Eis o que escrevi há uns meses:
 
Hoje soubemos que perdemos um amigo: chama-se Z. C. e tem um sorriso do tamanho da verdade.
O Z. é rezingão, tem a piada de quem resmunga por tudo e por nada. Tem na voz uma rouquidão que lhe fica mesmo bem.
Tem um gorro vermelho e um sobretudo, porque não pode apanhar frio.
Gosta do café com leite com açúcar, e já não me lembro se gosta de bolachas, mas não faz diferença. Ah, não gosta nada de salsichas, gosta é de atum.
O Z. é um homem bonito, tem pinta, tem charme. Tem dois filhos e uma mulher.
Tem uma vontade de os amar e parte-se todo para poder voltar para eles; levanta-se, cai, volta a levantar-se com o sorriso de quem já caiu muitas vezes e sabe que o caminho se faz de pé.
O Z. C. partiu. Sei que continua a resmungar por aí...
 
 
Pedro Pardinhas

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Ida às Aldeias - próximo sábado

Os voluntários das Aldeias - e, também, do FAS - estão convidados para se deslocarem às Aldeias no Marão, para cantar as Janeiras, no próximo sábado dia 24/01. A saída do Porto, em frente à nossa Senhora de Fátima, está marcada para as 10h, de modo a podermos ensair um pouco as músicas ao som de guitarras. Afinem as vossas vozes, instrumentos, tragam adereços festivos e boa disposição.
Agradeço, desde já, a todos pela participação.
Vamos ver se desta o tempo não nos impede!

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Crónica da visita aos imigrantes - 28.12.2008

A nossa última visita ao UHSA foi no dia 28 de Dezembro e estávamos seis pessoas. Foi uma visita diferente, não só por ter sido tão perto do Natal, mas também por termos levado connosco um pequeno e típico lanche "natalício" onde não faltaram as rabanadas, o bolo-rei, o pão-de-ló e os bombons, que tanto sucesso fizeram. O objectivo era, por um lado, marcarmos de alguma forma a data, mas também partilharmos com eles algo da nossa cultura e, com isso, termos mais um tema de conversa. Inicialmente tivemos alguma dificuldade de integração e não sabíamos bem o que fazer, mas, como é habitual, foi-se tornando tudo cada vez mais simples e espontâneo à medida que a tarde passava.
Assim, começámos por fazer o lanche e depois passarmos para a sala comum, onde costumamos fazer as actividades. Começámos, como é habitual, com o "jogo do novelo" (com o qual formamos uma rede de fios depois de termos dito o nosso nome, idade e país de origem) e, apesar de a maioria deles já o conhecer e o ter jogado pelo menos uma vez, houve uma enorme adesão. Creio que estávamos cerca de 25 pessoas (num total de mais ou menos 35), de entre os quais se destacavam algumas que já conhecíamos de outras visitas como o grupo de croatas, o grupo de sérvias e alguns africanos (Marrocos, Nigéria). Depois disto dividimo-nos naturalmente em alguns grupos para fazermos alguns jogos ou simplesmente para conversarmos ou ouvir música. Estive quase todo o tempo com as croatas e sérvias que já conhecia e devo dizer que nem dei pelo tempo passar. Para além de me terem ensinado alguns jogos de cartas, truques de magia e me terem lido o futuro, conversámos bastante na nossa mistura de línguas (espanhol/italiano/português).

Para não variar, foi outra visita única e difícil de descrever, não só em termos objectivos, como também em termos pessoais, já que considero que se trata de uma experiência de enorme partilha em que mesmo com muitas dificuldades de comunicação acabamos sempre por dar algo de nós e receber bastante de quem, por adversidades da vida, está numa situação tão difícil e inglória.

Katy

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Janeiras nas Aldeias - próximo Sábado

Os voluntários das Aldeias - e, também, do FAS - estão convidados para se deslocarem às Aldeias no Marão, para cantar as Janeiras, no próximo sábado dia 10/01. A saída do Porto, em frente à nossa Senhora de Fátima, está marcada para as 10h, de modo a podermos ensair um pouco as músicas ao som de guitarras. Afinem as vossas vozes, instrumentos, tragam adereços festivos e boa disposição.
Agradeço, desde já, a todos pela participação.

CRÓNICA RONDA DA BOAVISTA - 4 JANEIRO 2009

Depois da ronda de Natal com a equipa em peso, na ronda de Reis estávamos apenas os 3reis magos (eu, a Manela e o Sérgio)! Ao contrário do que era de esperar não fomos nós que demos os presentes... fomos presenteados com…

ALEGRIA – A nossa primeira paragem na D.F tem sido cada vez mais animada. Conseguimos sempre rir nem que não seja pela sua adoração ao dragão e ódio às águias. É bom vê-la quase todos os Domingos acompanhada por um dos filhos e a intimidade que têm. Claro que também já é um hábito o "estava a precisar daquele medicamento que me faz muito bem".

CALENDÁRIOS – Este Domingo no lar, para além do pão e dos bolos, tinham um verdadeiro saco de Pai Natal cheio de Bolos-reis. Vieram abrir o portão e a irmãzinha fez questão de nos dar calendários para 2009 e claro "levam um também para a Benedicta" (já és famosa no lar).

VINHO – O Sr.G tinha o lugar semi-ocupado por um novo jovem que acabava de sair de uma instituição e tinha voltado ao vício. Quando nos viu, o Sr.G pediu para esperarmos um pouco e… presenteou-nos com "2garrafas de vinho do bom". Prometemos que íamos dividir por todos num jantar da equipa em breve. Ele ficou muito contente por nos poder dar um presente porque está sempre a dizer que o ajudamos muito.

SORRISO – O Sr.Z estava muito conversador. Estava a curar uma gripe ou melhor… a "afogar" o vírus porque segundo ele funciona melhor que o antigripal. Não há vírus que resista e consiga nadar! Estava com vontade de ir tomar um banho e fazer a barba.

CORTE DE CABELO – Passando para o outro lado da "ponte" percebemos a vontade do Sr.Z. O Sr.A da frente tinha cortado o cabelo e a barba e realmente estava muito melhor. Tem andado um pouco volante entre a casa do amigo e a "ponte" onde retorna sempre que o amigo não está tão sóbrio. Apesar da tristeza pelo resultado do Benfica não desmotivou porque um jogador tinha dito no seu rádio que em Maio seriam campeões (vamos acreditar!!!)

GRANDE PASSAGEM DE ANO – Ao contrário do que estávamos à espera a D.G já na paragem contou-nos que foi muito boa a passagem de ano com a filha (ainda resmungona), o genro (que até tem um bom carro e veio buscá-la no dia de passagem de ano para uma longa viagem) e os 3netos que adoraram os presentes (Obrigada Imaginarium!!!)

TRABALHO – O Sr.A estava à nossa espera como todos os Domingos. Anda mais animado e continua no seu trabalho comunitário, o que para nós é uma vitória. É bom ouvi-lo dizer que no dia a seguir tem que se levantar cedo para ir trabalhar mas… já esperamos a frase seguinte… "o que eu gosto mesmo é de não trabalhar".

Ainda deixámos um saco ao JP e ao Sr.A que já dormiam. Espero que este ano seja um ano de mudanças para os dois. Cada um com o seu vicio…mas qual deles o mais agarrado.

Foi bom irmos para casa cheios de "presentes" neste primeiro Domingo de ronda de 2009!!!

Bom ano para todos.

Joana Gomes

CRÓNICA RONDA DA BOAVISTA - RONDA DE NATAL

Foi bom voltar às rondas: sentir o "cheiro" do que é parar por um tempo e centrarmo-nos nos outros.

Conforme é habitual, enchemos os sacos com os vários alimentos de donativos das Padarias, etc. Hoje vinham caras novas, pois era a ronda de Natal! Depois da azáfama inicial, concentrámo-nos numa oração improvisada pela Benedita. Sorridentes e -alguns- de gorros de Pai Natal na cabeça, lá partimos. Pelo festejo que era, levávamos presentes para cada um. Coisas que fomos recolhendo ou que comprámos para esta noite.

1º a D.F. Lá estava, sentadinha à nossa espera, com a (acho) namorada? de um dos filhos e o Sr.V. que, entretanto, também chegou. Ficaram contentes de nos ver! (A D.F. que tantas vezes tinha perguntado por mim e eu sem dar grandes notícias...!). Falaram-nos da ceia de Natal que tiveram. Também ficaram mt contentes por nos verem com presentes para eles. A D.F. abriu e pôs logo o casaco! Conseguimos tirar umas fotografias e terminar ali com uma música de Natal cantada pela anfitriã do espaço! Nota-se cada vez mais a cumplicidade do grupo com os SA, cada vez mais acreditam em nós e no nosso trabalho.

Depois deste bocadinho, passámos no lar para deixar o pão.

Seguidamente encontrámo-nos com o Sr.G. Lá estava, sorridente como sempre! Também recebeu o presente que lhe cabia, agradecido. Ia passar a ceia de Natal com a mulher, pois os filhos "já saíram de casa, já foram às vidas deles há muito tempo". É triste pensar que isto acontece entre pais e filhos...

Passámos também no Sr.Z. Estava "caído", não quis grandes conversas, n.º~so tem grandes esperanças quanto a mudanças no seu futuro. Mas agradeceu muito o nosso presente e facto de nos termos lembrado dele. Do outro lado da rua, estava o Sr.A., que lá saiu do seu sítio, vagaroso, dizendo-nos que andava a dormir bastantes vezes em casa de uns amigos e que era bom. Podia ver TV, tinha comido, dormia às horas que queria... è bom saber que há gente que o acolhe.

No B.S. já não apanhámos a D.G. que tinha saído mais cedo. Mas foi bom reencontrar o J.P, que está bastante mais magro, mas com o caminho "relativamente bem orientado", e o Sr.Al. que nos recebeu também com um sorriso. Abriram os presentes, e também nos deixaram fotografar. Ficou bem gira! Mesmo no final, ainda tive oportunidade de rever o orgulho do Sr.Al. ao dizer que os filhos estavam a estudar e a trabalhar, algo que há uns tempos era impensável!

O Sr. Ar. já estava a dormir, por isso deixámos-lhe apenas o saco e o presente, sem grandes conversas.

Por fim, parámos no JC, que estava cheio de pressa para apanhar o autocarro, falámos com a L., que também sorriu ao ver um presente para ela e nos disse que continua a pensar sair daquela vida (só não disse quando...) e com um rapaz, que estava de passagem, onde não houve espaço para grandes conversas, para além do nome, que agora não me lembro.

Terminámos a ronda com orações e pensamentos de cada um, por uma ronda que nos encheu os corações e que encheu de sorrisos, mesmo que ténues, os nossos amigos da rua. Como terá mesmo sido a ceia de Natal? Será que viram alguém da família?

E fico a pensar também do que é feito do Sr. R, Sr.Z., P&P, ZC e tantos outros de quem perdemos o rasto...

Um bj a todos.

Já tenho saudades dos Domingos!

Ana

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Crónica da visita aos imigrantes -14-12-2008

14 de Novembro de 2008, um dia fustigado por densa pluviosidade, aqui e acolá batida por vento forte, qual formal convite para uma tarde passada no conforto do lar!
Persistia, no mais íntimo da minha consciência, a missão programada para a USHA e todo o conteúdo humanitário que a mesma continha, razão mais do que suficiente para desafiar as agruras meteorológicas e desafiar o alcatrão escorregadio, indo ao encontro da Ana Aguiar, Nuno, Cláudia, Amélia e eu.
O objectivo, previamente definido, era passar uma tarde de convívio e de partilha com os imigrantes. Para tal preparamos um pequeno lanche, conbstituído por bolo rei, pão de ló e sumos, elementos essenciais para se abordar as tradições gastronómicas e culturais dos seus países de origem. Foi de comovente agrado observar as sentidas lágrimas a brotarem de olhos tímidos, sinónimo da saudade que tinham das suas origens.
Após o lanche, fomos para a Sala de Convívio e com eles participamos em diversos jogos de lazer, ajudando-os a minimizar, ainda que por curto espaço temporal, os problemas com que se debatem.
Em jeito de conclusão e em termos de reflexão, acredito que nada perdi ao abandonar o conforto do meu lar naquela tarde invernosa, bem pelo contrário, creio que vale mais o calor difundido por cada olhar de gratidão, por cada gesto de amor trocado.

André Catalão

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Crónica da Visita aos Imigrantes - 30.11.2008

Encontro marcado para as 16:30 em frente da UHSA. Hoje são 7 (Ana Aguiar, Diogo, Ana Pinho, Sónia Ferreira, Inês, Katy e Cláudia Henriques) os voluntários a visitar os imigrantes ilegais que foram apanhados por todo o país e que ali esperam por saber o que o futuro lhes reserva.
Como já e rotina, assim que entramos no estabelecimento prisional (porque, ao fim ao cabo, eles estão ali presos) dirigimo-nos a sala onde guardamos os nossos instrumentos (jogos, leitor de CD, balde com bolas, etiquetas, guitarra, entre outros), instrumentos esses que nos vão servir de ponte e nos ajudarão a estabelecer contacto com os retidos. Como sempre, a expectativa é grande (principalmente para os voluntários novos e/ou aqueles que já não vinham há algum tempo), pois nunca se sabe o que se espera: podem ser muitos ou poucos imigrantes, podem vir de qualquer parte do mundo, podem ou não estar interessados em interagir connosco, enfim, uma variada lista de situações das quais não temos controlo e que somos "obrigados" a saber lidar na hora.
Ajudando-nos uns aos outros, carregamos o material para a sala onde os imigrantes se encontram, a queimar o tempo que, para a maioria deles, não passa. Pelo corredor, encontram-se algumas caras já conhecidas que nos recebem com um olá ou um sorriso: imigrantes que ainda permanecem no estabelecimento e nos reconhecem de visitas passadas. A sua boa recepção ao nos verem, ainda que distante, e vista por nos como um sinal de que o nosso tempo ali passado não é em vão e que de facto eles valorizam a nossa disponibilidade em ir passar a nossa tarde de Domingo (ainda que bastante chuvosa e fria) na companhia deles.
Entramos por fim na sala. À primeira vista, parecem ser bastantes, cerca de 25, 30. Alguns olham-nos com ar desconfiado, outros (entre eles) comentam, outros mostram-se entusiasmados com caras novas, outros simplesmente ignoram-nos o que, como é lógico, tal acto não é julgado por nós, pois estão no direito deles.
Após apresentação do nosso grupo, cantámos a música. A adesão não e muita, por isso passamos a etapa seguinte: o jogo do novelo/da rede. A adesão aí já é maior: alguns participam voluntariamente, outros são motivados por nós, outros recusam-se a participar, mas nem por isso deixam de estar atentos ao que se esta a passar. Através deste jogo, percebemos que as nacionalidades predominantes naquele dia são brasileira e croata. Depois um ou outro oriundos da Ucrânia, Nigéria, Marrocos….
Ainda dentro do jogo do novelo, lemos o poema " Não me chames Estrangeiro". Embora durante o jogo houvesse ainda algum ruído de fundo (provocado pelos imigrantes que não aderiram ao circulo), é-nos notório que, na leitura do poema, o silêncio instala-se e há um interesse especial em perceber a mensagem que queremos transmitir: a que de independentemente da nacionalidade e situação de cada um, somos todos iguais. De certo modo, o poema colocou-os mais a vontade e facilitou a nossa relação com eles durante as restantes actividades que se seguiram. De facto, e após dissolver o circulo do novelo, o grupo espalhou-se pela sala, e cada um se entreteve com uma determinada actividade: uns a ouvir musica, outros a jogar com as bolas, outros a jogar ao Uno, outros a jogar as cartas, etc. Era de reparar que na maioria dos subgrupos que estavam na sala, poucos eram aqueles que não tinham um voluntário inserido neles. A partilha de jogos que eles próprios conheciam e que nós nos disponibilizamos a aprender foi algo que funcionou muito bem e que nos permitiu ainda mais aproximarmo-nos deles. Mais para a frente e depois do "gelo quebrado", houve oportunidade de realmente falarmos com eles, muito mais desinibidos e comunicativos, de sabermos um pouco mais sobre as suas vidas, do que eles sentiam naquele momento, dos seus desejos para o futuro. Foi curioso o facto de uma imigrante brasileira, que não estava na altura da apresentação e que chegou mais tarde à sala, quando nos viu, tão dispersos e integrados, comentou com outra imigrante que pensava que nos éramos novos imigrantes que tinham chegado ao estabelecimento.
Contudo, para nós o tempo passou rápido, e quando nos demos conta já passava das 18:30h, da nossa hora de saída. Despedimo-nos de todos com um abraço e um até breve, sendo notório em alguns, alguma tristeza de nos verem partir, o que nos fez sentir que, pelo menos desta vez aquelas 2horas passaram também rápido para eles.
Cláudia Henriques

terça-feira, dezembro 02, 2008

Ida às Aldeias 06/12 - Grupo A

Olá a todos!!

No próximo Sábado (6 de Dezembro) temos ida às Aldeias para o Grupo A.
O local de encontro será em frente à igreja N.ª S.ª de Fátima. A hora de partida: 11h00.

Confirmem, p.f., a presença/ausência.

domingo, novembro 30, 2008

Nunca sabemos o que nos espera do lado de dentro. Mais um dia de visita à UHSA.

Mais um dia de visita à UHSA! A expectativa faz parte, sempre, de cada uma das visitas. Nunca sabemos, nem podemos, o que nos espera do lado de dentro. Nessa tarde éramos 6: o Nuno, o André, a Ana Pinho, a Valéria, a Amélia e a Mariana (euzinha).
      Conto-vos como é aquilo:
      Muros altos, impenetráveis; alta segurança inviolável; pessoas perdidas num mundo que lhes fechou a porta, por um momento, talvez, vamos confiar que sim!
      Quando entramos naquele sítio, temos a clara noção do vazio que transparece de cada olhar, da desconfiança como que a perguntar: "Quem são estas pessoas? O que pensam que vêem aqui fazer? Mudar a nossa vida? Resolver os nossos problemas pendentes? Ajudar-nos a ultrapassar estes obstáculos que a vida nos colocou, e que parecem tão intransponíveis? Que pensam eles? Que só porque cá estão a vida nos irá sorrir?".
      Por vezes é complicado sentirmo-nos tão impotentes, termos a noção que não basta um gesto, um sorriso, uma palavra, para que estas pessoas, concretamente, se encham de vontade de lutar, e encarem o mundo de outra forma.
      No dia 16 de Novembro, quando lá chegámos, o frio que lá fora se fazia sentir por momentos parecia que lá dentro se propagava.
      Eram bastantes os imigrantes que lá se encontravam detidos, 27, não sei, não consigo precisar ao certo. Mas cada um deles tinha o mesmo sentimento de distância e frieza para connosco. Desta vez foi bastante complicado para o grupo iniciar qualquer uma das actividades que nos propusemos dinamizar. Muitos estavam num seu mundo, solitário, com o olhar fixo e vazio na televisão; atentos, outros, a jogar cartas; e ainda outros fechados no seu silêncio, enfim…foi difícil.
      Desde logo deparámo-nos com a barreira da língua. Inglês quase ninguém entendia, o francês nós também não nos sentíamos muitos à vontade, até isto, nesse dia, não parecia estar muito a nosso favor.
      As nacionalidades eram muito variadas, desde um grande grupo de croatas; um russo; brasileiros; um senegalês; nigerianas; um italiano; um angolano; um afegão…
      Mas quem disse que dar tudo de nós, em troca dum ensinamento de vida e de um pequeno gesto é uma tarefa fácil? Não é! Aquelas pessoas, "plantadas" naquele lugar, distante do nosso mundo, sentem a falta da família, do seu país de origem…da sua LIBERDADE! Reagem com os outros com nenhum apreço aparente. E porque seria diferente? Não nos conhecem, nunca nos viram, não somos amigos, nem família, nem compatriotas, somos o quê? Para eles somos nós, simplesmente estranhos. Sabem que não temos o poder de fazer mudar o que quer que seja!
      Mas mesmo assim não desistimos e, de 15 em 15 dias lá estamos nós, nada nos demove, nem mesmo a conversa no silêncio nos faz fraquejar.
      Nesse dia começámos, como é habitual, pela música NoXuKuRéLá e, ao contrário de outros "tempos", poucos foram os que connosco vieram cantar, enquanto isso, outros encaravam tudo com distância.
      Vi, contudo, a emoção estampada na face do senegalês que, enquanto cantava, recordava, quem sabe, a sua terra, as suas lembranças tão dele e de mais ninguém. Bem! Parece que conseguimos, através da nossa música, aconchegá-lo, demos-lhe a possibilidade de se rever lá, naquele país distante em quilómetros mas tão perto de nós como de todos os outros. É esta a nossa missão, tentar mostrar-lhes que somos iguais a todos eles, que somos humanos, todos, sem excepção, que merecemos todos, igualmente, oportunidades, ser felizes, rir, chorar, sonhar, ansiar, pensar, abraçar…todos pertencemos à mesma essência, que é viver unidos, e à mesma existência que é a vida, o Nosso Mundo.
      Seguidamente tentámos fazer o jogo do novelo, a adesão, mais uma vez, foi pouca. Entretanto, parte deles já tinham virado as costas à nossa tentativa de aproximação. A iniciativa das etiquetas autocolantes, coladas em cada um de nós, e escritas com o nosso nome, para que possamos conhecer-nos melhor, pelo menos sabendo o nome de cada um, pois  a distância assim torna-se mais curta, também se mostrou complicada.
      O jogo das bolas parece que foi, na minha opinião, o mais aceite. Senti que foi um momento curto, mas que proporcionou alguma alegria.
      O jogo da mímica também ele teve pouca receptividade por parte de todos eles.
      Tomei, juntamente com a Amélia, a iniciativa de propor jogar cartas com alguns deles, divertimo-nos todos, foi giro, gostei!
      Por último, e antes de sairmos e dizermos adeus a todos eles, cantámos a música "Imagine", momento que idealizámos como perfeito para encerrar a nossa visita, mas que não foi igualmente muito participativo.
      Esta foi, então, a nossa tarde!
      Saímos todos com alguma tristeza, diria eu, desapontados por não termos conseguido unirmo-nos uns aos outros, por não termos conseguido criar o tal EU, uma só pessoa, a dita Humanidade, que somos todos nós, e que nos caracteriza por sermos um só…não interessa a cor, a nacionalidade, a língua, a religião, os costumes, os hábitos…nós não somos nós, nós somos EU…existe um todo…somos todos diferentes nas convicções mas iguais porque somos humanos, porque lutamos pelo mesmo, queremos porque queremos VIVER!
      Nunca é fácil aproximá-los de nós, nesse dia ainda foi mais difícil do que nos anteriores, mas também não podemos querer que nos abram os braços e nos acolham, assim sem mais! Podemos sim, e temos essa liberdade, ficar na expectativa de…eles se aproximarem…de se mostrarem um pouco mais…
      São pessoas amarguradas com a vida, com uma grande relutância em aceitar os outros.
      Tiro uma lição de vida desta visita e desta experiência que é o FAS  Imigrantes: "Quero continuar a fazer parte deste grupo, que é um todo, unido num mesmo propósito, dar sem esperar receber nada…dar sem querer obrigatoriamente receber. E quero acreditar que, nem que seja por 5 minutos, a nossa presença faz toda a diferença. Há que esperar que num dos dias, sem que estejamos à espera, recebamos do outro lado uma palavra, um gesto, um ensinamento para toda a vida!".
Mariana